
Aos inquietos, sem tranqüilidade, sem voz.
Aos cheios de medo e dúvida
Escolhi ser um homem-cheio-de-palavras. Digo que as amo, as mordo e as moldo. São como barro. Crio vasos. Palavras que ficam firmes e seguras por pouco tempo. Vaso é frágil. Leve. Um empurrão mais violento o coloca no chão. E, agora, onde estão as palavras, caro amigo? Não passam de terra, de argila, de pó de vidro, destroçadas. Lançadas ao nada. Não passam de som...
Entreguei-me a elas desde cedo. Antes, tinha as minhas agendas, minhas palavras no fim da noite. Meus rascunhos, meus guardanapos das cantinas: rabiscados, escritos. Qualquer idéia se transformava em palavras-de-papel. Uns dizem que são cheias de poesia, de estórias, de magia. Talvez. Que elas sejam cheias de vida. De uma vida marcada pelas inquietações desse mundo.
Cada palavra nasce cortando a minha língua, os meus dedos. São viscerais, filhas das entranhas, das dores, das lágrimas, dos medos cotidianos. Em alguns outros momentos, nascem como refrigério, água no deserto da existência. São as bem-ditas palavras de esperança. Tão necessárias em meu mundo da vida.
Nestes últimos dias, as palavras foram confusas. Loucas. Sem sentido. Não as entendi. Nasceram palavras da dor, do luto, da lágrima, da celebração, da saudade e da utopia. Uma confusão de realidades. Uma bagunça verborrágica. Sambas e velórios. Gritos de festa e silêncios de dor. Tensão. Conflito. Trauma. Medo cortando qualquer idéia, calando com mãos duras, ásperas, qualquer voz, choro, clamor.
Neste caos, perguntam logo os religiosos, os do caminho de Jesus (como eu): Deus onde estás? Porque desamparaste este povo, esta gente, este menino, este poeta que um dia escolheu seguir o Deus-em-si-poesia... Deus, porque o justo? A dor em sua hora da morte... o sorriso dos cruéis. Deus de vários nomes e rostos? Porque a dúvida, a dor, o choro? Morte malvada, cruel, desumana que separa os amantes. Deus do silêncio, dos eclipses, das sombras. Onde estás? Retira-me destas sensações que cortam meu corpo. “Já que és o verdadeiro filho de Deus, desprega a humanidade dessa cruz!” (Murilo Mendes).
Palavras sem sentido. Quando tudo parece bem... os vasos são derrubados. Voltam ao pó. As telhas com que mexo as minhas chagas não fazem mais sentido. A dúvida se faz gente-grande perto da criança, do poeta, do profeta... as ameaças são maiores. Sinto-me cada vez menor. Calado. As palavras se converteram e se transformaram em seu pai: o silêncio. Elas tomaram outros corpos, outras línguas, outras telas. Sou um homem-sem-palavras...
Diante dessa confusão, relembro as letras de Oswaldo Montenegro, Lulu Santos e Murilo Mendes:
“Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo. Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. E que o teu silêncio me fale cada vez mais” (Oswaldo Montenegro).
“Tem certas coisas que eu não sei dizer...” (Lulu Santos).
"No silêncio cultivam a pura flor da esperança" (Murilo Mendes)
Perdão por este texto vagabundo: sem começo, sem meio e sem fim...
Ele apenas é...